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A VITICULTURA DE ALTITUDE NO PLANALTO CATARINENSE (PARTE 1)

Eng. Agrônomo Dr.Jean Pierre Rosier

INTRODUÇÃO

Uma nova região vitícola se estabeleceu definitivamente nos locais de altitude no planalto catarinense. A quebra de paradigmas, em relação à viticultura tradicional praticada a muitos anos no estado de Santa Catarina, se deve a utilização de  parâmetros que compõem a mais pura noção de terroir, como as particularidades que envolvem o clima local, os solos , as plantas e os fatores humanos responsáveis pela introdução e produção.

É no sul do Brasil, onde em latitudes elevadas e em locais de altitude próximas a 1000 metros acima do nível do mar, que as condições climáticas particulares retardam o ciclo vegetativo das videiras, favorecendo a obtenção de matéria prima para elaboração de vinhos diferenciados em relação aos tradicionalmente produzidos, permitindo a obtenção de uma maturação das uvas que transmite aos vinhos uma intensa coloração, aromas definidos, um bom volume e equilíbrio gustativo.

Figura 1: Localização de Santa Catarina

A HISTÓRIA

A descoberta e a divulgação desta região fazem parte da história da Epagri, (Empresa de Pesquisa e Extensão Rural de Santa Catarina) inicialmente na Estação experimental de Videira e em seguida na de São Joaquim.

Tudo teve início na década de 90 com a instalação de coleções de cultivares de videira Vitis viníferas com o objetivo de testar sua adaptabilidade na grande diversidade climática de Santa Catarina. Dentre outros locais foi testada nas condições extremas de São Joaquim a 1400 m, onde a ocorrência de geadas primaveris, que ocorrem com certa frequência, fez com que a maior parte das variedades fossem descartadas e a coleção deixada de lado. Alguns anos depois, meu colega Jean Pierre Ducroquet, especialista em ameixa, recolheu alguns cachos de uva sobreviventes às geadas e os levou até mim na Estação Experimental de Videira, sem saber qual era a variedade. Eram de Cabernet sauvignon e não estavam completamente maduros apesar de estarmos no mês de março, pelo menos 30 dias depois da maturação da Cabernet produzida em locais mais baixos em relação ao nível do mar.

Esta pequena produção experimental se mostrou interessante e o primeiro vinho foi vinificado em pequena quantidade no ano de 1998. O resultado mostrou uma qualidade surpreendente para os padrões da época nas regiões tradicionais. Em 1999 repetimos a experiência e os resultados foram superiores aos primeiros.

A partir da daí a divulgação com auxílio da Estação Experimental de São Joaquim foi fundamental no aval das corajosas afirmações de que havíamos descoberto algo novo e muito promissor. Esta trajetória teve a colaboração de diferentes governos estaduais rivais, mostrando que projetos bem fundamentados e com bons resultados podem ser concretizados apesar da existência de políticas partidárias distintas.

Os empresários sedentos de novidades não aguardaram novos resultados da pesquisa. Suas ações foram sem dúvida a grande mola propulsora do desenvolvimento, nos colocando uma responsabilidade da mesma magnitude que os investimentos de risco por eles realizados. No início, os produtores separados pelo regionalismo se curvaram as evidentes características qualitativas dos vinhos produzidos nos diferentes locais de altitude (São Joaquim, Campos Novos e Caçador) e formaram uma associação a ACAVITIS , hoje VINHOS DE ALTITUDE. Entre vários empreendedores três deles tem a responsabilidade da criação Caio Pisani, Dilor Freitas, após sua morte seguido por seu filho João Paulo Freitas e Maurício Grando.

O segundo passo para a concretização da região foi o acompanhamento de boa parte das implantações dos vinhedos. A chegada de novos enólogos contribuiu de forma marcante para que ocorresse um desenvolvimento técnico regional em regiões onde nunca havia sido produzido uva.

Em uma época onde a sede de conhecimento pelo que ocorria nesta região crescia a cada dia, e onde não bastava somente ver os resultados, mas sim era preciso entender o que estava a ocorrendo, mais uma vez a Epagri juntamente com as universidades UFSC e UDESC e com o apoio incondicional da Embrapa Uva e Vinho desenvolveram, e ainda desenvolvem, inúmeros trabalhos científicos altamente qualificados que trazem a luz uma grande gama de respostas aos ainda crescentes anseios e dúvidas do processo produtivo ideal tanto nas uvas como nos vinhos.

Com os vinhedos implantados e poucas vinícolas existentes, mais uma vez a união se mostrou presente e ocorreram vinificações de diversos produtores em parceria. Eu mesmo fui enólogo ou consultor de pelo menos 9 empreendimentos ao mesmo tempo, numa demonstração de parceria entre o governo do estado e entre os próprios produtores.

AS ÁREAS DE ABRANGÊNCIA

Originalmente os locais de produção foram subdivididos em três polos: São Joaquim que incluía os municípios de São Joaquim e Bom Retiro. O Segundo polo era Campos Novos que incluía Tangará, Videira, e Campos Novos e o Terceiro era denominado de Caçador e incluía Água Doce.

Figura 2: Localização dos três polos iniciais de produção de uvas de altitude em Santa Catarina.

Logo surgiram outros locais produtores como Urubici, Urupema, Campo Belo do Sul, Treze Tílias e Rancho Queimado, que foram se agregando aos existentes e trazendo consigo suas particularidades, sempre respeitando a produção de uvas na altitude mínima de 900 metros acima do nível  do mar como determinava as regras ditadas pela associação .

Atualmente são 250 Ha de vinhedos em produção, que contribuem com aproximadamente 1 milhão de Kg de uvas produzindo em média 800 mil garrafas entre vinhos finos e espumantes.

Esta produção é elaborada em 20 estabelecimentos vinícolas que constam com as mais modernas estruturas arquitetônicas visando o enoturismo e equipamentos enológicos de última geração para a elaboração dos vinhos.

O CLIMA

Caracterizado climaticamente como C-mesotérmico de verão fresco e carácter subtropical, muitas vezes se assemelha às características de climas temperados.

A altitude entre 900 e 1400 metros acima do nível do mar, na latitude próxima a 28o sul, influencia o ciclo vegetativo da videira retardando o início das atividades referentes à brotação para o mês de outubro e alongando-se na fase final da maturação até o fim do mês de abril em alguns casos.

Apesar do deslocamento do ciclo vegetativo nas regiões de altitude, para épocas onde as temperaturas são menores, normalmente o incremento de temperatura no mês de setembro é suficiente para dar partida às atividades metabólicas da brotação, mas graças às baixas temperaturas noturnas nos locais mais elevados, a floração é retardada e tem seu período alongado atrasando o início da pinta das bagas assim como a maturação completa que ocorre de 30 a 48 dias após a maturação das uvas nos locais mais baixos.

Este deslocamento no tempo traz vantagens e desvantagens durante o ciclo vegetativo.

Em clima de altitude as brotações ocorrem normalmente quando entre baixas temperaturas ocorre uma janela de dias mais quentes desencadeando o processo, principalmente nas variedades mais precoces, como a Chardonnay e a Pinot noir e 10 a 15 dias depois até as mais tardias como a Cabernet sauvignon iniciam este processo. Neste caso são as temperaturas da primavera que influenciam de forma decisiva na produtividade e na qualidade da futura colheita.

Entre os perigos existem as geadas tardias que podem ocorrer até no mês de novembro em alguns anos catastróficos queimando jovens brotos, folhas e flores, reduzindo de forma drástica a produção. Para algumas variedades como a Merlot a ocorrência de temperaturas baixas durante a florada provoca o abortamento floral reduzindo a produtividade mesmo sem ocorrência de geada.

Fonte: Epagri Estação Experimental de São Joaquim.
Figura 3: Temperaturas mínimas e máximas ( oC ) ,média de 40 anos, ocorridas em São Joaquim durante o ciclo vegetativo da videira.

Entre as benesses da ocorrência de baixas temperaturas na primavera é que a mineralização da matéria orgânica dos solos é reduzida influenciando beneficamente em um menor crescimento vegetativo, propiciando a ocorrência de entrenos curtos, mais folhas por ramos, películas das uvas mais espessas e menor incidências de ataques de fungos, que com exceção da antracnose, requerem menos cuidados com tratamentos fitossanitários.

Já no fim do ciclo a grande vantagem da ocorrência de menores temperaturas é possibilitar que a maturação ocorra em uma época onde as precipitações pluviométricas normalmente são menores, assim como as temperaturas noturnas, reduzindo o crescimento vegetativo, o que favorece o acúmulo de energia nos frutos, uma vez que esta não é dispendida no crescimento de ramos. Nesta fase as menores temperaturas também auxiliam na redução dos tratamentos fitossanitários, que são realizados em menor número, apesar de serem imprescindíveis.

Nos climas de montanha as horas de insolação são benéficas ao desenvolvimento da maturação permitindo facilmente a obtenção de teores alcóolicos elevados, e trazem consigo uma maior incidência de raios ultravioletas que agem sobre o sistema imunológico das plantas favorecendo a formação de teores de polifenois e antocianinas. Estas têm sua importância no incremento da cor dos vinhos e os polifenois, dentre eles o resveratrol, que chega a ocorrer em teores mais de duas vezes superiores aos valores normalmente encontrados em vinhos de outras localidades brasileiras.

Figura 4 : Precipitação média em São Joaquim durante o ciclo vegetativo da videira.

As fases de desenvolvimento das plantas são determinadas por variações hormonais e estas regem a produção dos compostos que diferenciam a matéria prima dos vinhos em diferentes climas e locais de produção.

As baixas temperaturas noturnas provocam uma alteração hormonal, determinando redução do crescimento vegetativo e início da maturação com acúmulos de açúcares, substâncias fenólicas e precursores de aromas.

O período que antecede a pinta das bagas ou veraison, caracteriza-se por uma redução de auxinas, hormônios do crescimento, e o surgimento do ácido abcísico (AbA), hormônio do estresse, que determina a coloração das bagas. Em locais em que as temperaturas elevadas favorecem o crescimento vegetativo paralelamente a tal fenômeno, a veraison ocorre mais cedo, proporciinando um período de maturação reduzido, com menor acúmulo de substancias interessantes à composição dos mostos. Nos vinhedos de altitude, as baixas temperaturas induzem a uma redução do crescimento vegetativo e uma veraison e maturação mais tardias e longas, logo mostos com maior complexidade.

A síntese de compostos fenólicos está ligada ao metabolismo dos açúcares e do nitrogênio. Depois da veraison, ocorrem profundas mudanças metabólicas como a redução da glicólise, iniciando o acúmulo de açúcares. Quando os açúcares são armazenados ocorrem vias metabólicas alternativas para o acúmulo dos compostos fenólicos. A glicólise, via piruvato, é uma delas sendo também responsável pelo desenvolvimento vegetativo. Outra via metabólica é a das pentoses, onde se encontra o aminoácido fenilalanina que, comandado pela concentração hormonal, direciona a energia para o acúmulo de proteína e portanto, ao crescimento vegetativo. Sempre que ocorrer redução do crescimento vegetativo, graças ao desequilíbrio hormonal, ocorre o favorecimento de acúmulo de compostos fenólicos. Se a planta crescer ao mesmo tempo em que amadurecerem os frutos este acúmulo é reduzido, o que ocorre em menor quantidade nos climas de temperaturas amenas.

A ocorrência de baixas temperaturas induz a uma variação hormonal no metabolismo que passa também a atuar pela via das pentoses, fazendo com que a fenilalanina contribua para a formação da fenilalanina-amonialiase (PAL) enzima ligada ao aparecimento da coloração durante a veraison. A ação desta enzima participa do deslocamento da via metabólica, que antes proporcionava o crescimento vegetativo, para via do ácido cinâmico direcionando a energia para formação de lignina para reservas e para o chalcone, precursor dos taninos, flavonóides e antocianidinas, que sem o crescimento vegetativo, recebem sua cota de energia de forma redobrada, via glicólise e via pentose.

Como as noites são frias durante a maturação, a degradação do ácido málico é reduzida ocasionando nos mostos e nos vinhos teores até três vezes superiores aos comumente encontrados. Estas concentrações elevadas deste ácido propiciam vinhos brancos de acidez delicada e espumantes brancos e roses com a vivacidade típica e exclusiva do ácido málico. Já nos vinhos tintos torna a fermentação malolática imprescindível e difícil de ser realizada, pois as baixas temperaturas do ambiente, a quantidade de álcool e a importante carga polifenólica existente requerem vinícolas preparadas para tal tarefa. A forte produção de ácido lático proveniente da transformação do málico enriquece o volume dos vinhos tintos com o aumento do carácter aveludado.Ainda pouco estudados, mas observados na prática, são os efeitos da influência oceânica e a continentalidade exercida sobre algumas regiões produtoras. São Joaquim e seus arredores se encontram em linha reta a menos de 70 km de distância do oceano atlântico e em certas épocas recebem uma carga de influência climática típica destes meios. Já na macro região de Caçador este efeito não existe mas sim a influência do continente, com seus ventos e clima caracteristicamente particulares. Nos vinhedos localizados geograficamente intermediários a estes, as características se mesclam e podem influir de outra forma no meso-clima local, contribuindo para a diversidade particular de cada polo produtor.

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